O DISCURSO DE FRIEDRICH LUDWIG SCHRÖDER Proferido em 3 de setembro de 1789

O discurso de Schröder quando foi eleito pela segunda vez Venerável Mestre da Loja “Emanuel zur Maienblume”, é de fundamental importância para a compreensão dos conceitos que ele tinha em mente quando propôs a reforma da Maçonaria e deu inicio à confecção dos Rituais.

Vossa escolha, meus respeitáveis irmãos, ao me confiar o malhete desta Loja mais uma vez me honra. Nada, mais lisonjeiro do que gozar da confiança de homens livres, que sacrificam voluntariamente parte do seu tempo em função do presente evento! Contudo, permaneço indeciso. Eu previ que o descontentamento de alguns irmãos contagiaria outros. Eu pressagiei que o clima de união e de concórdia, que reinou durante aquele um ano e meio em que tive a honra de conduzir o malhete desta oficina, havia chegado ao fim (1). Sendo assim, nada mais me resta a fazer do que tentar contribuir para o restabelecimento da harmonia que outrora aqui havia. Para a realização deste objetivo, peço-vos que analisem meus conceitos sobre a Franco-Maçonaria e submeta-os à prova.

Com profunda convicção considero a Franco-Maçonaria uma irmandade verdadeira e benemérita. Com mais convicção ainda creio que ela encerra coisas que na época do seu surgimento exigiam um véu misterioso, às vezes símbolos perdidos, os quais com o passar dos anos sofreram modificações.

A Franco-Maçonaria, com sua moral pura, primorosa, voltada às grandes finalidades; ela, que possui todas as virtudes para tornar o homem melhor; ela, inimiga declarada de todos os preconceitos; ela, que derrubou as barreiras divisórias existentes entre os homens, impostas pelas religiões, pelas pátrias e pela posição social; ela, que unificou homens de todas as nações como verdadeiros irmãos; ela, quem primeiro ensinou a todos a virtude da tolerância; pode ela ser uma obra hierárquica? Podem os seus costumes ser uma farsa? Ela não merece ser despida de seus compromissos solenes, a pretexto de sua conservação e propagação.

Por estes motivos não posso permanecer indiferente face à maneira como a estão conduzindo. Em mais de uma palestra protestei contra o ato de admitir candidatos sem submetê-los ao escrutínio e às provas de iniciação, como amiúde vem sendo feito; contra o fanatismo de qualquer natureza, tenha ele o nome de Rosacrucionismo, de Asiatismo ou de Africanismo (2); contra as eternas palavras de fraternidade que nunca se traduzem em fatos; contra trabalhos conduzidos em loja que afugentam homens sérios e causam tédio nos jovens. Eu tentei, até onde me foi possível, cumprir com o meu dever, conversar com os irmãos de forma instrutiva, entretê-los, sem deixar que caíssem no marasmo. Estou certo de que não errei e isto me enche de alegria.

Mas minha palavra, meu compromisso, minha convicção, impedem-me de dar aprovação a qualquer coisa que possa abalar os alicerces da Maçonaria. Daí o caso em questão ser demasiadamente estranho. Como é possível que irmãos maçons, os quais homenageio e considero de todo o coração, votem em um Mestre que não deseja ser Mestre, que afirma que irá destruir a Franco-Maçonaria, visto que suprimir seus símbolos é o mesmo que destruí-la! (3)

É certo que a Franco-Maçonaria em nosso país é diferente em relação a outros e, com respeito às épocas passadas, pode-se dizer que fraudes e aleivosias a deturparam. É lícito afirmar que ela necessita de algumas modificações, mas devemos por este motivo

repudiá-la? É justo incorrermos modificações, mas devemos fazê-lo por causa de uma conclusão preconceituosa? É preciso que aqueles que consideram os símbolos da Maçonaria uma farsa nos convençam de sua inconsistência. Meditai meus Irmãos sobre os ensinamentos simples contidos no Grau de Aprendiz! Analisai os vários modos como são inculcadas em nossas mentes a firmeza, a serenidade, a inteligência e a discrição. Notai a insistência com que os mesmos nos recomendam o aprimoramento intelectual e o estudo das ciências. Meditai sobre os importantes ensinamentos presentes nestes quadros! Podem eles estar fundados em uma farsa? E o estudo sobre a origem dos seus costumes e tradições, seria também ato indigno de um homem pensante?

Quem deseja suprimir ou modificar algo deve primeiro demonstrar que tem outra coisa melhor para colocar no lugar daquilo que pretende substituir ou abolir. Por acaso existe alguma virtude social que já não faça parte integrante dos ensinamentos da Franco- Maçonaria? Poderá alguém fornecer-nos algo de novo e de melhor? O que há de errado com os seus símbolos? Sobretudo o que esperar de sua existência? A supressão dos seus símbolos e tradições visa atingir um objetivo de alcance maior, que consiste em substituir algo insubstituível? Ou seja, a destruição de uma cadeia que une 1.000 irmãos, uma cadeia a qual muitos devem seu bem estar, a alegria de suas vidas e suas próprias vidas. Pode-se esperar que membros de uma sociedade como esta venham a se reconhecer mutuamente como irmãos?

Eu tenho apreço por todo o objetivo que é nobre, mesmo que ele seja impraticável. Mas o cargo que o vosso voto me outorga força-me, com toda a sinceridade, a alertá-los sobre a impraticabilidade de algumas idéias e sobre certos inconvenientes que antevejo. Confesso francamente que nenhum interesse tenho pelos trabalhos que se pretende realizar, nesta ou em outra oficina qualquer. Possui alguma loja uma instituição de caridade? Será que não existe em outro lugar homem de cabeça com capacidade para conduzir o malhete e enobrecer o tempo dos irmãos?

Os sábios Börne e Gemmingem (4) de Viena não precisaram abolir os símbolos e os rituais da Maçonaria para atuarem maravilhosamente nos corações e nas mentes dos irmãos de suas lojas. Por conseguinte, o problema da futilidade e do tédio dos trabalhos reside não na coisa em si, mas em quem os dirige. E quem é que elege o dirigente? Meus Irmãos! Deixai que tradições como as das Guildas dos artesãos percam o seu valor, deixai que a interpretação dos seus símbolos – responsáveis pela formação de uma grande cadeia de irmãos – torne-se algo totalmente inútil para nós, e verão onde tudo irá terminar.

É preciso admitir a necessidade de uma reforma consciente. É preciso que orientemo-nos pelo sistema inglês, aquele da época em que os irmãos eram admitidos nas lojas por meio da palavra e da assinatura (sic). É preciso estar atentos quanto à presença de místicos, iluminados e outros sonhadores em nossas reuniões. Só assim poderemos realizar os verdadeiros objetivos da Maçonaria. No futuro darei uma explicação extensiva sobre a natureza e ação dos iluminados (5).

Já vos descrevi meus Veneráveis Irmãos o que foi a Maçonaria, o que ela deve ser, e o que para nós ela realmente é. Estão os senhores em condições de condenar profanações feitas contra um ensinamento puro, qualquer que seja ele? Acabar com tais abusos, eis nossa preocupação. Cumpramos estes grandes objetivos, morais e físicos, que se apresentam perante nossos olhos. Fixemos o montante de nossas economias e estipulemos o que de bom construir com elas. Meus Irmãos trata-se de um objetivo que demanda rigoroso exame. Persistamos nele, firmes, resolutos! Caridade no sentido mais amplo é a característica, é o espírito da Franco-Maçonaria. Disto resulta que bondade no coração seja a principal condição exigida por nossa sociedade, tal como nos velhos tempos. Este espírito esteve presente em suas deliberações e em seus trabalhos desde tempos imemoriais; até mesmo em seus banquetes fraternais, onde irmãos hesitavam comer em abundancia caso não tivessem contribuído para secar algumas lagrimas produzidas pela pobreza. É verdade que a Franco-Maçonaria colocou na cabeça os objetivos mais excêntricos, dividiu-se em varias seitas, porém nunca cessou de difundir – e, sobretudo de praticar – a virtude da caridade. Trata-se de um mandamento fundamental da Fraternidade, cuja implementação cumpre que seja feita com toda a determinação e sabedoria.

 

Meus caros Irmãos, espero ter explicado corretamente meus conceitos básicos sobre a Franco-Maçonaria. Em resumo, é prudente precavermo-nos contra tais absurdos e preocuparmo-nos com a formação do homem. É necessário ainda acrescentar o bem estar do ser humano a esta nobre finalidade. É preciso que cuidemos para que em nossa Constituição e em nossos rituais não haja mudanças substanciais muito menos supressões, para não comprometermos toda a Franco-Maçonaria e os nossos solenes e voluntários compromissos. Que minhas palavras sejam abençoadas e que a harmonia e o amor fraternal reinem para sempre em nossas reuniões.

 

Schröder exerce o cargo de Venerável Mestre na Loja Emanuel entre 1787 e 1799.

Está se referindo às Ordens dos Arquitetos Africanos e dos Irmãos Asiáticos. A primeira foi fundada em 1756 em Berlim por Baucheren e sancionada por Frederico II da Prússia e, a segunda, foi fundada em 1780 pelo Barão Johann Kral von Eckhoffen (ver Capítulo VI – Misticismo e Charlatanismo).

Está se referindo ao comerciante e senador de Hamburgo Georg Heinrich Sieveking (1751-1799). Iniciado também na Loja Emanuel zur Maienblume (1774), Sieveking propôs a supressão de todos os símbolos da Maçonaria, quando eleito Venerável Mestre da Loja Saint George, afirmando que os mesmos não passavam de uma farsa.

Börne e Gemmingem: o Barão Otto Heinrich von Gemmingen (1755-1836) foi um pouco conhecido teatrólogo e escritor do Iluminismo. Em 1782 ele se muda para a Áustria e contribui para a difusão do Iluminismo no país, durante o reinado do Imperador Francisco José. Ludwig Börne foi um famoso escritor e político alemão, também iluminista.

Iluminados da Baviera: organização de cunho maçônico, fundada por Adam Weishaupt, reitor da Universidade da Ingolstadt, que tinha ramificações em vários países, inclusive no Brasil (ver Capítulo VII – O Rito da Estrita Observância e os Iluminados da Baviera).

Traduzido pelo Irm. Antonio Gouveia Medeiros, P.G.M. do GOESC/GOB. Presidente do Colégio de Estudos do Rito Schröder de Florianópolis – SC Membro Honorário da B.A.R.L.S. “CONCORDIA ET HUMANITAS”, Nr. 56 Membro da Loja Maçônica de Estudos e Pesquisas “Universum”, Nr. 147 ambas da Jurisdição da M.R.G.L.M.E.R.G.S.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s