Chaves: um exemplo de maçonaria?

imagesFaleceu no último dia 28 de novembro o ator, escritor e dramaturgo mexicano Roberto Gomez Bolaños, conhecido no meio televisivo por “Chespirito” e famoso por criar e interpretar dois personagens marcantes: Chaves e Chapolin Colorado. Exibido originalmente de 1971 a 1979 no México e a partir de 1984 no Brasil, a história do seriado Chaves passa por uma Vila, no subúrbio, em que os carentes moradores atravessam dificuldades para vencer o cotidiano.

Chaves, o protagonista, foi abandonado pelos pais na vila e reside em um barril. Sem ter quem o sustente, vive de favores da vizinhança, formada pelo sempre devedor de aluguéis, o Senhor Madruga; pela filha de Madruga, Chiquinha; Por Dona Florinda e seu filho Quico, talvez a família em melhor condição social do local; pela Dona Clotilde, a Bruxa do 71; pelo Professor Girafales, que sempre visita a vila e leciona para as crianças do local; e por Senhor Barriga, o proprietário da vila e seu filho Nhonho.

Neste enredo, a história se repete: as confusões começam entre as crianças (Quico, Chiquinha e Chaves) e desencadeia para os adultos (Seu Madruga e Dona Florinda, basicamente) e o culpado de tudo é a criança menos favorecida em todos os sentidos: Chaves. Para quem lê, tal história poder-se-ia tornar enfadonha, repetitiva; mas a genialidade de Bolaños fez com que o seriado se tornasse um clássico, exibido em toda a América Latina.

O menino desamparado, faminto, conseguia a felicidade com muito pouco: ora com um sanduíche de presunto, ora com uma bola de tênis (bem menor que a bola de parque do Quico). Alegrava-se com um carrinho feito de caixa de sapato e puxado por uma corda. Ficava feliz com a guerra de água, barro, tinta ou qualquer outro ingrediente. Empolgava-se em poder exercer uma profissão, talvez o desejo da maioria das crianças da época, um sonho distante, inacessível.

O seriado fez tanto sucesso nos países em que foi exibido por retratar o drama da maior parcela da população destes locais: crianças abandonadas, sem perspectiva de futuro, em um cotidiano pobre, em que a exploração do aluguel nos deixa rico e dever se torna sátira; em que uma mãe viúva busca o melhor para o filho, mas fica presa ao sistema; em que o professor almeja ter mais que o respeito, mas sim proporcionar um futuro melhor a todos os seus alunos.

Identificamo-nos pelo universo pobre de Chaves, em que ascender à classe média nos faz melhor, diferentes, poderosos. Exibir a marca da roupa do verão, ostentar carros e viagens são exemplos disso. Na maçonaria podemos caminhar para o mesmo destino: construir templos suntuosos, em que o luxo interno não reflete o mundo exterior; investir em paramentos dispendiosos, que serão utilizados apenas nas sessões para pose de belas fotos; realizar promoções apenas para desejo próprio, sem auxiliar quem realmente precisa.

O que quero dizer com este trabalho é que podemos sim fazer uma maçonaria ao estilo Chaves, sem irritar ninguém, sem aproveitar-se da nobreza de ninguém (ao estilo Chapolin), sem querer querendo. Podemos seguir sim com a simplicidade que nos rodeia, ao estilo proposto pelo Rito Schröder, em que o ser significa mais do que o ter. Podemos nos satisfazer com um riso de uma criança pobre abandonada, que deseja ser feliz e que precisa de tão pouco para alcançar esta felicidade. Podemos trabalhar em prol de uma maçonaria mais fraterna e unida, dizimando a discórdia e a vaidade que tanto combatemos. Podemos tolerar mais nossos irmãos e perdoar 14 meses de aluguel. Podemos ser mestres, ensinando um neófito, mas sem se esquecer que devemos seguir como eternos aprendizes. E, ainda que a vizinha nos dê um tabefe sem saber o motivo, devemos nos levantar e lutar por aquilo que acreditamos.

Para ser maçom não é preciso ter muito. Apenas aquilo necessário para ingressar na ordem, cumprir as obrigações e atuar para um mundo melhor. Não se faz necessário ingressarmos em grandes manifestações, em revoltas vazias e que traduzem o sentimento da massa perdida. Ser maçom em nosso rito é ser como o Chaves: não é preciso ter uma casa grande, apenas um pequeno barril nos abriga; o alimento, ainda que pouco, nos sustenta; um templo em uma sala comercial locada já é suficiente para nos abrigar; um abraço fraterno, perdoando aquele que à vezes nos ofende já nos anima. E, se tudo isso não funcionar, não nos esqueçamos de que para Chaves os animais que podem comer de tudo são chamados ricos…

Autor: Ir. Tiago Valenciano

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